sábado, 25 de setembro de 2021

bateu

corri ali na janela
bateu vento fresco
olho pro horizonte
como quem enxerga o futuro
ainda faz calor

bateu vento fresco
preferia que chovesse
e eu dormisse bem

li três livros de Freud
pra poder usar pulsão

os tapetes não estão mais na sala
nem todos os tapetes podemos bater na máquina

você não quer mesmo saber como estou?

bateu vento fresco
o meu vizinho tossiu
tenho uma cachorra chamada Maria

bateu
vento fresco
sono
e tudo mais

domingo, 5 de setembro de 2021

não fazer mais um poema falando de você

hoje eu vi uma pequena aranha tentando comer uma mosca
a mosca era maior que ela 
se eu espantasse, interferia na natureza
a mosca, todos sabemos ser chata
a aranha ficaria sem comer e a mosca a encher 
quando eu era criança eu vi um mosquito cair numa teia
a aranha veio e sugou o interior do mosquito como um milkshake
hoje não havia teia, estavam sobre a pia da cozinha
a aranha deu uma chave de asas na mosca
preferi não ver a aranha tomar seu milkshake dessa vez
não sou capaz de dizer se ela conseguiu
não sou capaz de me compadecer por completo da mosca
esses tempos dei de usar raquete elétrica contra elas também
tem pernilongos que não morrem com o choque
intuo que eles se tornam mais fortes e mutantes
tudo isso pra não fazer mais um poema falando de você

terça-feira, 10 de agosto de 2021

mo(n)stro

lembro

o lenço de sangue

a paisagem imitando os laços

o sentido contrário

o avesso do curso nosso

prosas infindas perscrutando a intimidade

vezes sim

vezes não

o sintoma do já dado caso de posse por domínio

colonizados os corpos, os topos, os vícios

toque de pele ou de caixa

a rapidez da re(L)ação

essa sim, expressa

instantânea

o ataque da língua 

e o verter de ódio

ao invés de lágrimas

o soco no peito

o esbarrão

e o chão

sem mover um só dedo

mas movendo montanhas

apenas pela força do gesto

palavras teleguiadas

palavras lanças

um jogo estranho 

do tipo que não se aprende enquanto joga

uma obra de temática única

uma realidade não esperada

uma confusão jamais vista

um abismo de "Niti"

que eu não olho mais

mas que me olha 

dentro

bem dentro de mim


quinta-feira, 8 de julho de 2021

beijo na planta do pé

o tempo tem me dado lições firmes
o medo tem me dito coisas fortes
ontem eu era eu, hoje um joão bobão
apenas me chute
com suas botas firmes em couro
apenas me use
com seus cínicos dons de ouro
um trunfo
um truque
e um dissabor
um fundo
um vagabundo
e o que for

teimou que seria
mas vem o degrau

tomou para azia
mais um sonrisal 

há que se escolher
quem mais vai entrar
deixar para trás
o pensar do que já não é mais

imagine se um dia nesse canto floresça
um jardim vertical com tudo que mais cresça
vai ser muda e mudinha de todos os gostos
vai levar pra casa
vai levar a sério
vai plantar os pés
das sementes que pegou aqui

sábado, 12 de junho de 2021

Me ruma

Perco o foco do teu rosto e te quero como foto uma pessoa que já não existe mais

Passo os olhos nos teus olhos, gesticulo, aceno, mas só o que ouço é mais um suspiro que ruma em minha direção 

Me toma e me rima o interior 

Me ama e me devolve ontem, amor

Sem coragem sem convite 

Saiba

Ainda

Estou 

Aqui

segunda-feira, 17 de maio de 2021

contrários, avessos, opostos

dias difíceis
de escorrer
dias grandes
curtos de ser

talvez eu tenha me deparado
talvez eu não queira aceitar

as traves
pra bater
as praias
pra morrer

loopings gigantes
rodas
vens repetitivos
para vais 
fodas

contrários
avessos
opostos

e,

Foi aqui que vim quando não tinha mais pra onde ir Foi daqui que saí quando achei que não tinha mais o que dizer Quanto ao resgate, quanto t...