quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Replay

sem tempo pra dizer 
que não vai nada bem, baby
essa loucura por dentro
essa falta de centro
para que não fique isso
na cabeça um ponto fixo
sobre mais nada
quero pensar
e se amanhã mudar
é só mais ontem
pro meu currículo
meu precipício
parece se agigantar
deixa pra lá
eu só queria, um desabafo
uma fotografia mais colorida
um sorriso mais bonito
do que tem sido a minha vida
eu quero ser mais lindo
do que o seu sossego
dormir e acordar
sem pensar
sem sonhar
sem lembrar
você
cem vezes por dia
coisa de mania
tecla de replay


domingo, 6 de novembro de 2022

"menas" idades

fiz trato
contato
disse tudo
não disse
tive sorte
surtei
o taxista, em alta velocidade, perdeu o escapamento numa valeta 
apenas desci depois de achar meu celular que voou da mão
"quer que eu te chame um Uber?"
"não esperava isso de você, seu taxista"
amenidades

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

o prazer da volta
aqui mais uma vez
toda pausa importante 
toda causa equidistante
do encontro 
tanto pro sim
quanto pro nunca mais
linhas de fugas
paralelas infinitesimais
profundas
gerais
são só palavras entre estrelas
já que toda essa poeira o seu brilho ofuscou
pormenores vulgares
sem eira nem beira 
que vou
tratar de limpar
conversas de aspirador 
feitas pra gritar
vão fazendo, à tona vindo
teu pó




quinta-feira, 16 de junho de 2022

com teus (meus) pés

ouvi da música
de tempos tantos
os tantos tempos
que dizia eu mesmo temer

agora que o passado
é um tanto muito
uma massa densa
que embalada a vácuo, contém você

a música termina
o baile desanima
mas reverbera
reverbera assunto e som

dar um pause
pensar distante
oh, operação

tive medo, tive
mas tive só
tive muito
muito pior

são versinhos indelicados
dos mesmos moinhos do mundo
os mesquinhos sonhos
de Cartola, os triturados
as ilusões a pó

agora que o tempo é passado
um presente guiado
um futuro ou porém

preste atenção
o abismo é recorrente
feito sonho
em que cai 
em que acorda

abismo que cavaste
(que cavei, que cavamos)
com teus (meus) pés

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Um século

teria tatuado frase feita
rente às costas 
o teu poético vernáculo
fosse um século
de tuas românticas palavras
o teu vocábulo
tuas dissonantes liturgias
egrégios ditos

teria roçado o peito
à agulha quente
da mesma máquina
óleo e dedal
a linha: que cor a linha?
o corte ao molde do senão
alinhavava amor
para costurar o pão

faria de mui bom grado
as letras tortas
das curtas às grossas
os erros crassos
bilhetes-pele
listas-derme
em que a receita
recita e deita

então, 

seria
mais dia ou menos dia
herança ou passagem
permanência ou imagem
marcas
além das memórias
de que existia 


quinta-feira, 28 de abril de 2022

eu nunca vi uma pereira

parte ao meio e aos montes 
tempo voa 
em tudo tempo quer voar

vão-se os dias
vão para passar

quando pisco
tempo incomum
tanta coisa
tanta coisa
tanto um

que se tem algo que passa
é o tempo que passa
e passa pra passar

a volta é sempre única
e eu nunca vi uma pereira

a beleza de letras
a fantasia da prima
a obra
a rima

se a minha voz não sair
não ligue não
encontre som onde puder
se a minha letra apagar
fique assim não
entenda aquilo que quiser

soa como for
se se tratar de amor
sua como der
se for buscar a pé

e eu nunca vi uma pereira

segunda-feira, 28 de março de 2022

1/2 de mim


o meio de mim
não tem nem 1/2 de mim
tem de zero a algo
tem de algo a um

tento
tanto tempo
quanto não

o meio de mim
parte o meio
que não é meio
de mim
invade o inteiro
que não é cheio
de mim
sente o grande
que não é tão pequeno

assim

o meio de mim
só pode ter um tanto
quanto não
carece de horizonte
quando então
não pode se dizer cheio
porque meio 
é 

enfim

o inteiro de mim
o outro meio
ruim

traUma

é tanta coisa rondante instante estante é falante ouvir o fonema frus da palavra frustrante e falar o trante difícil, inaudível deselagante ...